As ondas foram ficando cada vez maiores, ondas de críticas atingiram Carlo Ancelotti. Os detratores disseram que o Brasil não tinha uma escalação definida. Que o Brasil carecia de identidade. Eles destruíram as suas escolhas contra Marrocos; Roger Ibanez na lateral-direita, Igor Thiago na frente. Por que, Carlos? Por que? Então, suas substituições na MetLife foram examinadas. Ancelotti fez cinco deles. Mas Endrick, ele não se deu bem. Por que, Carlos? Por que? As ondas continuaram. Raphinha parecia perdido na partida de estreia do Brasil, com um empate de 1 a 1 desanimador. Ele não precisava de instruções táticas mais detalhadas? Que valor você trouxe para a seleção nacional, Carlo? Uma sobrancelha arqueada. As ondas varreram ele. Eles não o levaram para baixo.
Pressão? “Quero dizer, é realmente um privilégio”, disse ele. Se há alguém que aguenta águas agitadas, é ‘Anselocci’. Na última semana, no centro de treinamento do New York Red Bulls, em Morris Township, Nova Jersey, o italiano de 67 anos observou as ondas e chegou a uma conclusão. Ele precisava de um surfista. Matheus Cunha foi uma das duas mudanças que Ancelotti fez contra o Haiti. Ele decidiu substituir Igor Thiago, o atacante do Brentford, que vai se arrepender da chance que perdeu no início contra o Marrocos, quando Vinicius Jr fez um cruzamento para ele, que ele desviou dolorosamente ao lado.
Ainda não se sabe se será a última chance de Thiago. É um torneio longo e, como disse Ancelotti na semana passada, não se julga uma equipa ou este grupo de jogadores no seu primeiro jogo no Mundial. Enquanto as ondas o atingiam, ele pedia paciência. A Espanha perdeu para a Suíça em 2010. A Argentina sofreu uma derrota chocante para a Arábia Saudita em 2022. Ambas se recuperaram para vencer o torneio.
Cunha marca seu segundo gol contra o Haiti (Kevin C. Cox/Getty Images)
No Lincoln Financial Field, na sexta-feira, Cunha vestiu a camisa 9 da Marinha do Brasil. Esquecido na última Copa do Mundo, no Catar, quando não estava na seleção final, este foi o seu momento. Ancelotti gosta de Cunha pela mesma razão que o Man United. “Podemos falar sobre suas habilidades técnicas e ele pode jogar em três posições diferentes”, disse o CEO do United, Omar Berrada. “Ele é um meio-campista ofensivo criativo; ele pode marcar gols, pode dar assistências. Acho que ele vai levantar as pessoas de seus assentos. Ele tem um pouco de arrogância que as pessoas vão gostar muito.” O que os executivos de marketing por trás da marca do Brasil chamam Jogo bonito.
Só que quantas pessoas estavam pedindo a apresentação de Cunha ao time?
A mídia dificilmente estava fazendo campanha por seu envolvimento. Os brasileiros queriam saber mais sobre Neymar. Quando ele estará de volta? Ele está em forma novamente? Não, ele não é. Neymar não viajou para Filadélfia com o elenco. “Ele permanecerá em Nova Jersey para aproveitar ao máximo a fase final de sua recuperação, aproveitando as excelentes instalações do hotel The Ridge e do centro de treinamento Columbia Park”, dizia comunicado da CBF. Então o clamor passou de Neymar para Endrick.
Primeiro, depois do jogo com Marrocos. Depois, antes do jogo contra o Haiti. Não é hora do Endrick, Carlo? Vamos, por favor. “Endrick é muito talentoso, um talento extraordinário”, disse Ancelotti. “E é claro que o Brasil se beneficiará de sua qualidade nesta Copa do Mundo, mas também na próxima Copa do Mundo. Endrick é paciente. Ele não tem pressa.” Mas o Brasil é.
O Real Madrid pagou quase 50 milhões de euros pelo adolescente em 2024. Ele marcou 15 gols enquanto estava emprestado ao Lyon, na segunda metade da temporada passada. Ele é o próximo craque, um jogador que corresponde à ideia do que o Brasil acha que deveria ser um jogador da seleção. Ancelotti pareceu ceder à pressão pública para incluir Neymar em seu elenco. Ele faria o mesmo com Endrick e o nomearia como titular? “É difícil quando você está competindo com seus amigos”, disse Cunha. “Mas vemos isso como algo positivo. Quando o time é escolhido, pode ser bom para um e ruim para outro.” Aquele que Ancelotti escolheu foi bom para Cunha e bom para o Brasil.
Concedeu ao Haiti a 87ª posição no mundo. É verdade que Honduras também venceu por 3 a 0 no intervalo do outono do ano passado. Mas o Brasil parecia um pouco mais com o Brasil.
Bruno Guimarães e Lucas Paquetá fizeram passes astutos para dividir a defesa. Casemiro tentou bolas por cima. Raphinha teve um lindo gol anulado por impedimento. Ele então se machucou e nos lembramos do talento que o Brasil tem no banco, com a entrada de Rayan. Mas a noite foi de Cunha. Ele ficou aquém e empatou a jogada. Ele recuperou a bola e lançou ataques. Ele acertou em cheio com Vini Jr em um 4-2-4 que tem seus méritos contra uma equipe do calibre do Haiti.
Cunha conseguiu comemorar o surf duas vezes durante o jogo de sexta-feira na Filadélfia (Mauro PIMENTEL / AFP via Getty Images)
Ondas de ataques foram lançadas e Cunha marcou duas vezes em sua estreia na Copa do Mundo. Ele seguiu um chute defendido e teve sorte quando uma bola ricocheteou nele para a rede. No segundo, Paquetá recuperou a bola, Vini Jr passou e Cunha despachou enfática perto da trave. Ele comemorou ambos como se estivesse remando para pegar uma onda, surfando nos críticos. “Tento surfar quando vou ao Brasil”, explicou Cunha. “Vou para um vilarejo perto da minha cidade. Eles me ensinaram como começar a surfar e agora sou considerado um surfista.”
Ele manteve isso na Inglaterra. “Vou para Bristol, mas a água está muito fria. Preciso melhorar meu nível.” Cunha ergueu o do Brasil nesta Copa do Mundo.
Questionado se o jogador de 27 anos será titular contra a Escócia, em Miami, Ancelotti limitou-se a dizer: “Pode”. Neymar pode estar de volta até lá e, enquanto isso, Endrick continua uma obsessão. “Espero que ele se torne um dos grandes jogadores brasileiros”, disse Cunha magnanimamente. “Ele já deu muita alegria ao povo, jogando pelo Palmeiras e, em outros momentos, pelo Brasil. Sua qualidade é nítida. Estamos sempre brincando com ele. Ele é muito humilde, sempre pedindo conselhos.”
Duas vezes durante o jogo no Lincoln Financial Field, os torcedores brasileiros desfraldaram uma faixa esvoaçante celebrando cinco ícones de cinco times vencedores da Copa do Mundo; Didi, Garrincha, Pelé, Romário e Ronaldo. Depois, no ponto fraco do estádio, Kaká, Rivaldo e Bebeto se misturaram aos torcedores. Ondas de nostalgia continuam poderosas quando se trata do Brasil.
Surfá-los tem se mostrado muito difícil para muitos desta geração e da última. Veja Fred e Richarlison. Mas talvez não Cunha.