Não é como assistir ao Brasil. Não aquele que vimos em cores granuladas na Azteca 1970. Nem é o que as agências de publicidade chamam jogo bonito também, a estratégia de marketing e o talento associados às seleções brasileiras do final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando venceram a Copa do Mundo pela última vez.
Então o que é isso?
Quando Carlo Ancelotti não está respondendo perguntas sobre a condição física de Neymar ou o que Endrick precisa fazer para ser titular no Brasilele é repetidamente questionado sobre a identidade da equipe. Qual a grande ideia dele para o Brasil? Onde está a filosofia? O Brasil deveria ter uma marca de futebol?
“Só prestamos atenção em um time quando assistimos ao jogo”, observou o colunista da Folha de São Paulo, Idelber Avelar.
Ancelotti tentou ser romântico. Antes do início da Copa do Mundo, ele falou sobre como o carnaval carioca serve de inspiração, de metáfora para a nação.
“Você vê o Brasil no carnaval”, disse ele. “Isso aparece antes de tudo no alegria; a energia ilimitada e o desejo de estarmos juntos; e a excelente organização, porque o carnaval – especialmente o do Rio – é uma máquina perfeitamente lubrificada em termos de tempo, planejamento de eventos e cenografia. Este é o Brasil. Gostaria também de acrescentar uma nota sobre a humildade, porque é isso que caracteriza um país verdadeiramente maravilhoso.”
O desafio, a seu ver, era refletir esse espírito na equipe e vencer. Porque vencer, mais do que tudo, é a identidade do Brasil. O filho de Ancelotti, Davide, entendeu isso durante sua breve passagem pelo Botofogo.
“A permanência média de um técnico no Brasil é de quatro meses”, disse ele A Tripleta podcast. Os clubes são exigentes. As fanbases estão acostumadas ao sucesso. Cinco das últimas seis finais da Copa Libertadores foram disputadas exclusivamente por brasileiros. O país espera que sexta; uma sexta Copa do Mundo. Como eles vão fazer isso? E é de qualquer forma possível, ok? Ancelotti acredita que isso deveria ser suficiente. Muitas vezes retratadas como diametralmente opostas, as culturas brasileira e italiana têm isso em comum.
“O Brasil tem muitas identidades”, disse Ancelotti. “Não quero uma identidade clara para a equipa, porque a minha equipa tem que fazer muitas coisas. Quero que a minha equipa seja capaz de fazer muitas coisas: defender com um bloco baixo, atacar, aproveitar ao máximo a qualidade dos jogadores, ser agressivo no ataque, recuar, ser defensivo na sua própria área…” Isso satisfez os detractores de Ancelotti, que pedem mais definição e conformidade com o Brasil que habita o nosso imaginário colectivo? Isso não aconteceu.
Mas o Brasil está começando a tomar forma. Existe uma forma em seus jogos. Vinicius Junior se destacou, marcando em todos os jogos da fase de grupos. Os jogos sem sofrer golos foram mantidos contra o Haiti, na Filadélfia, e a Escócia, em Miami. O placar – 3 a 0 – também foi simétrico. Para quem quer padrões de jogo, já viu os gols que o Brasil marca? Muitos deles são iguais.
“Muitos dos gols que marcamos nesta partida vieram de desarmes e recuperações de posse de bola”, disse ele
Assistir ao Brasil de Ancelotti não é exatamente como sintonizar um gegenpressing lado da Alemanha. A “humildade” de que Ancelotti fala é perceptível na sua vontade de afastar os adversários e deixá-los, por vezes, ter a bola. A Escócia, por exemplo, completou mais de 400 passes no Hard Rock.
O Brasil escolhe seus momentos. Eles roubam os bolsos das equipes uma e outra vez.
Apesar de toda a angústia de Scott McKenna ao ser pego com a bola por Rayan antes do gol de estreia de Vinicius Jr contra a Escócia ou da forma como Vinicius roubou a posse de bola de Jack Hendry por um segundo anulado, é isso que o Brasil de Ancelotti faz. Considerado uma inépcia por parte dos defesas-centrais, também é direccionado e coordenado.
No amistoso contra o Panamá, em maio, Rayan e Igor Thiago caçaram o goleiro Orlando Mosquera, um enxame de Killer Bees de Bournemouth e Brentford.

Apressada por Rayan, a imprensa forçou Mosquera a cometer um erro.

E Thiago ficou muito feliz ao chutar para o gol vazio.

Contra o Egito, no último amistoso antes da Copa do Mundo, o Brasil voltou a atacar. Desta vez, Bruno Guimarães subiu alto no campo e foi recompensado com um gol.

Mais tarde no jogo, o vencedor veio de Matheus Cunha liderando outra pressão. Tudo o que Raphinha precisou fazer foi fazer um cut-back para uma finalização de Endrick.

“Será uma Copa do Mundo intensa”, afirma Ancelotti. Esperava-se que o calor e a umidade tornassem muito difícil manter essa intensidade alta desde o início até o apito final nos EUA. Com o tempo, a fadiga acumulada terá um papel importante. Por enquanto, porém, o intervalo de tempo entre os jogos e as pausas para hidratação têm ajudado o Brasil, mesmo que continuem a adotar uma abordagem comedida.
Dois dos três gols contra o Haiti, no Lincoln Financial Field, também foram o resultado de jogadores brasileiros lerem as intenções de seus oponentes e fazê-los pagar. O primeiro gol dos dois gols de Cunha foi resultado de ele adivinhar um passe antes de liberar Vinicius Jr e entrar no ataque.

O segundo seguiu uma sequência familiar, quando Lucas Paquetá se esgueirou por trás de um meio-campista haitiano, tirou a bola dele e rapidamente libertou Vinicius Jr. Foi Vinicius quem então jogou em Cunha para uma finalização enfática de pé esquerdo no primeiro poste.

Depois de avançar para os 16 avos-de-final como vencedor do grupo, Ancelotti sentiu que o ambiente em torno da equipa mudou. Ele disse a todos no Brasil para ficarem calmos, “muito calma.” No que diz respeito à identidade, ele reconheceu a curiosidade despertada por um italiano cantando o hino nacional do Brasil.
“É difícil aprender as palavras”, disse ele. “Mas eu gosto de cantá-los.”
Esta foi mais uma demonstração de respeito pela cultura do Brasil, seu DNA vencedor. Em 1994 e 2002, Ancelotti acredita que o Brasil venceu Copas do Mundo não por ser vistoso, mas por ser sólido. A primeira dessas vitórias contou com Dunga e Mauro Silva no meio-campo. O segundo Kleberson e Gilberto Silva. Muitos ainda não acreditam, mesmo com Vinicius Jr nesta forma cintilante, que o time atual tenha o mesmo calibre de jogador na frente ou nas entrelinhas como nesses casos. Mas hoje talvez o melhor craque do Brasil seja a sua imprensa. Funcionou contra o Haiti e a Escócia. Também, não esqueçamos, deixou a desejar em relação a Marrocos.
No final das contas, os sete pontos conquistados pelo Brasil na fase de grupos significaram muito mais para Ancelotti do que pontos de estilo nos jornais. “O objetivo não é jogar bem”, disse ele. “O objetivo é vencer.”